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Vício: Tráfico de cocaína reacende insurgência no Peru

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Primeiro, os soldados vieram ao Rio Seco, uma vila produtora de coca na selva montanhosa do sul do Peru. "Eles nos chamaram de subversivos e abriram fogo", disse Benedicto Condor, 55 anos, cultivador de coca. Eles mataram à queima-roupa quatro pessoas, incluindo uma mulher grávida de cinco meses, conforme afirmaram testemunhas. Duas crianças, com 6 e 1 ano de idade, desapareceram. Acredita-se que elas estejam mortas.

Quatro meses depois, os guerrilheiros chegaram, acusando os habitantes da vila de ajudar os militares. Eles levaram o líder da guerrilha, que não foi mais visto desde então.

As angustiantes histórias de violência na selva à medida que dezenas de famílias têm fugido de suas vilas nos últimos meses levanta um espectro agourento: uma guerra brutal, que aterrorizou o país por duas décadas, pode estar retomando vida.

A guerra contra os rebeldes do Sendero Luminoso, que levou quase 70 mil vidas, acabou, teoricamente, em 2000.

Porém, num dos lugares mais remotos dos Andes, as forças armadas, numa campanha renovada, está combatendo uma facção rebelde ressurgente. E o Sendero Luminoso, espelhando-se nos rebeldes colombianos, se reinventou como um negócio de drogas ilícitas, reconstruindo-se com os lucros resultantes do próspero comércio de cocaína no Peru.

As linhas de frente estão na selva de Vizcatan, uma região de 650 km² no vale dos rios Apurimac e Ene. A região é a maior produtora de coca do Peru, o ingrediente básico para a cocaína.

Enquanto os militares e os rebeldes brigam pelo controle de vilarejos isolados produtores de coca, os relatos de baixas e mortes de civis mortos nos tiroteios – ainda muito menores que a carnificina ocorrida no auge da guerra do Sendero Luminoso, nos anos de 1980 e começo da década de 1990 – estão trazendo fantasmas aos quais a maioria dos peruanos julgava mortos.

"Os soldados acham que todos nós somos terroristas, e com isso acreditam poder destruir tudo que se move", disse Alfredo Pacheco, 45 anos, produtor de coca que fugiu de sua vila, Nueva Esperanza, em setembro, depois que soldados queimaram as cabanas dali em busca dos rebeldes.

Oficiais militares afirmaram que as cabanas eram pontos de maceração de folha de coca e laboratórios de cocaína.

 

Coca X Cocaína

Essas visões conflitantes são praticamente embutidas no sistema. A coca, a folha levemente estimulante mastigada crua desde antes da conquista dos espanhóis, é amplamente legalizada. A cocaína, não.

A coca, símbolo quase sagrado do orgulho indígena, é onipresente por aqui. Qatun Tarpuy, um partido político que defende a coca, pinta imagens das folhas nas cabanas. As mulheres colhem coca em terras ao longo da rodovia empoeirada, e as crianças as colocam para secar ao sol.

Também é quase impossível encontrar um produtor de coca aqui que admita que sua produção seja vendida para qualquer coisa distinta do uso tradicional. Mas, de alguma forma, estudos descobriram, cerca de 90% da coca é destinada à produção de cocaína.

Em 2007, o último ano com dados disponíveis, o cultivo de coca no Peru aumentou em 4%, atingindo o nível mais alto em uma década, de acordo com as Nações Unidas. Ao mesmo tempo, a produção estimada de cocaína no Peru aumentou para 290 toneladas, perdendo somente para a Colômbia.

Desde que o Sendero Luminoso se retraiu após a captura de seu líder messiânico, Abimael Guzmán, em 1992, ele tem seguido o grupo rebelde colombiano muito maior, as FARC, em criar uma insurgência esquerdista com o gerenciamento e a produção de drogas.

 

Novos confrontos

Apesar do Sendero Luminoso ter estado envolvido com a coca antes, agora ela é seu foco principal. Segundo analistas militares e anti-drogas, a facção, apesar de ainda professar ser uma insurgência maoísta de espírito, agora está no negócio de proteger traficantes de drogas, coletando impostos de produtores rurais e operando seus próprios laboratórios de cocaína.

"Os guerrilheiros agora operam com a eficiência e a letalidade de uma organização de tráfico de drogas de elite", disse Jaime Antezana, analista de segurança em Lima, capital do Peru. Ele estima que o Sendero Luminoso empregue cerca de 500 trabalhadores no comércio de cocaína, além de cerca de 350 combatentes armados.

Preocupado com a volta dos rebeldes e o crescimento da cocaína, o governo intensificou a campanha contra-insurgência no último mês de agosto, e as mortes foram muitas.

As guerrilhas mataram pelo menos 26 pessoas em 2008, incluindo 22 soldados e policiais, o ano mais sangrento em quase uma década, de acordo com analistas de segurança.

Grupos de direitos humanos, ao mesmo tempo, estão exigindo investigações sobre argumentos de que soldados peruanos mataram pelo menos cinco civis, assim como o desaparecimento de duas crianças em Rio Seco e o deslocamento de dezenas de famílias de vilas dispersas.

 

Oficiais militares se irritam com o relato de abusos. "As pessoas dos direitos humanos dizem: ‘Alguns civis foram mortos, que horrível’", disse o Ministro da Defesa, Ántero Flores Aráoz, numa entrevista em Lima. Quanto a Rosa Chávez Sihuincha, a mulher grávida morta em Rio Seco, ele sugeriu que ela teve o que mereceu.

"Que diabos ela estava fazendo em Vizcatán?", ele disse. "Ela estava rezando o terço? De forma alguma. Ou ela estava transportando folhas de coca para o processamento, ou estava levando produtos químicos, ou era parte da logística do grupo Sendero Luminoso."

Apesar dos Estados Unidos não estarem diretamente envolvidos na campanha contra a insurgência, o país ofereceu US$ 60 milhões em ajuda no combate às drogas ano passado, cerca de um nono do que gasta anualmente em esforços anti-drogas e contra-insurgência na Colômbia.

Oficiais locais admitem terem sido lentos em reconhecer o que estava diante deles quando Guzmán, ex-professor de filosofia, desatou a revolta dos camponeses na década de 1980, uma experiência que eles tentam considerar enquanto procuram decifrar os rebeldes de hoje.

"Tem aqueles que dizem: ‘Por que se preocupar com algumas centenas de guerrilheiros na selva?’", disse Alberto Bolívar, especialista da contra-isurgência. "Mas ele esquecem facilmente que o Sendero Luminoso começou sua luta armada em 1980 com somente algumas centenas de pessoas. Duas décadas depois, houve 70 mil mortos".

Mas, ao que parece, o Sendero Luminoso também aprendeu algumas lições.

Produtores de coca daqui descreveram os maoístas de hoje como uma força disciplinada e bem-armada, adentrando vilas em grupos de vinte, usando uniformes pretos. Pouco se sabe sobre os líderes, exceto a crença de que dois irmãos, Victor Quispe Palomino, conhecido como José, e Jorge Quispe Palomino, cujo apelido é Raúl, estão no comando.

Soldados falam com respeito sobre o comando dos rebeldes do terreno da selva e de suas habilidades de assediar com tiroteios mais de uma dúzia de bases que foram estabelecidas nos últimos meses. "A coluna deles parece se derreter na selva", disse o Major Julio Delgado, oficial baseado em Pichari, uma das maiores cidades do vale.

Os rebeldes argumentam que não matam mais oficiais locais ou espalham o terror com táticas como plantar bombas em mulas em mercados lotados, atrocidades que fizeram o grupo ser odiado na década de 1980. Essa metamorfose foi confirmada pelo testemunho de moradores da vila que fizeram contato com eles, entrevistas com rebeldes aprisionados e uma análise de 45 páginas elaborada pelos rebeldes, contando a evolução do grupo desde suas origens, sob o comando de Guzmán, obtido pela inteligência militar em dezembro.

Segundo o documento, eles consideram Guzmán um traidor "revisionista" e condenam outra facção do Sendero Luminoso, no vale do alto Huallaga, no norte, por sua abertura a negociações.

Talvez a diferença mais notável entre o novo e o antigo Sendero Luminoso seja a nova relação do grupo com os habitantes das vilas, que ostensivamente preferem o paternalismo ao terrorismo.

Os moradores se referem aos guerrilheiros como "os tios", apesar de que qualquer afeição familiar é forçada pela ameaça da violência.

É um acordo volátil bem entendido, dos altos generais a uma vendedora de frutas como María Auccatoma, 48 anos, que vende manga perto da vila de Machente, num local marcado com cruzes em homenagem a três civis e cinco policiais mortos pelos guerrilheiros durante uma emboscada.

"Podemos viver em paz", disse tranquilamente Auccatoma, "desde que obedeçamos aos tios".

 

G1

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