Por pbagora.com.br

O presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, encerrou nesta quinta-feira um tour por sete países sul-americanos para tentar angariar apoio ao plano para aumentar a presença militar dos Estados Unidos no país. Analistas afirmam que o pacto, que recebeu uma recepção gelada entre os presidentes regionais, reflete um erro de cálculo do governo de Barack Obama e pode levar alguns países latino-americanos a intensificarem suas compras de armamentos.

 

Em meio a um cenário de polarização na região, o pacto entre os dois países permitirá aos americanos utilizar três bases militares na Colômbia. O novo acordo, previsto para ser finalizado neste mês, permitirá a Washington manter 1.400 pessoas entre militares e civis nos próximos dez anos e compensará o recente fechamento da base americana de Manta, no Equador. Os países vizinhos veem o acordo como uma ameaça militar na região.

"Pode ser que o objetivo declarado seja o combate ao narcotráfico e à guerrilha, mas na realidade é uma ação de dissuasão perante a Venezuela", disse Geraldo Cavagnari, do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de Campinas (Unicamp).

Os analistas não preveem, porém, um aumento significativo do contingente norte-americano na Colômbia, já que o Comando Sul dos EUA declara como sua missão realizar operações de inteligência e vigilância.

"É correto dizer que as operações conduzidas a partir dessas bases serão principalmente de reconhecimento militar para combater o narcotráfico. Mas na prática são muitas as coisas que se pode fazer uma vez que se tenha um avião no ar", disse Hal Klepak, professor emérito do Real Colégio Militar do Canadá.

Uma das razões para a desativação da base de Manta foi, por exemplo, a suspeita de que dali teria decolado um avião norte-americano que forneceu à Colômbia informações que resultaram no bombardeio de um acampamento da guerrilha Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em território equatoriano. Washington nega.

O aumento da presença militar norte-americana na Colômbia poderia também alterar o equilíbrio de forças na região, que em 2008 destinou 1,3% do seu PIB à compra de armas, segundo dados da entidade Rede de Segurança e Defesa da América Latina.

Erro de cálculo

A determinação do presidente colombiano, Alvaro Uribe, de elevar a presença militar norte-americana na Colômbia não irritou só críticos de Washington, como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Também aliados do governo Obama, como o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e sua colega chilena, Michelle Bachelet, fizeram ressalvas.

Para muitos, o tratado em discussão contradiz abertamente a promessa de Obama para "um novo começo" com a América Latina.

Michael Shifter, pesquisador da entidade norte-americana Inter-American Dialogue, acha que a Casa Branca não sabe onde está se metendo. "Não acho que o governo Obama compreendeu a seriedade dessa decisão, nem as consequências que vemos hoje", afirmou. "Não acho que seja o resultado de um pensamento estratégico, nem tenha a ver com a Venezuela ou com as Farc."

O certo é que, seis meses depois de assumir o poder, Obama não tem ainda um secretário-adjunto de Estado para o Hemisfério Ocidental que supervisione a região. Seu indicado, o acadêmico de origem chilena Arturo Valenzuela, ainda não foi aprovado pelo Senado.

Analistas, no entanto, afirmam que a presença na América Latina é consistente com a doutrina de defesa do Pentágono que avalia como baixo o potencial de um conflito armado envolvendo um ou mais países da região, mas quer manter sob controle as "organizações terroristas".

Os Estados Unidos têm nesta sexta-feira instalações militares em Aruba, Colômbia, Curaçao, El Salvador, Honduras, Peru, Porto Rico e até em Cuba, país com cujo governo Washington nem sequer mantém relações diplomáticas formais.

Mais armas

Chávez, que retirou seu embaixador de Bogotá e congelou as relações bilaterais, ameaçou "duplicar" seu poder militar diante do que descreve como ameaças "do império".

"Lamento dizer que vamos ver mais gasto com defesa. Chile, Brasil, Venezuela, Colômbia e México estão gastando um montão de dinheiro. A região está indo de pouco gasto militar para um nível não tão baixo", disse Kleplak.

O Brasil, potência regional, com um orçamento de defesa de cerca de US$ 26,2 bilhões em 2008, tem uma longa lista de compras, que inclui helicópteros, caças e até um submarino nuclear.

"Essa situação na Colômbia pode contribuir para que o Brasil acelere os planos de elevar seu perfil estratégico militar", disse Cavagnari, da Unicamp.

O gasto em defesa também é significativo na Colômbia, que teve um orçamento para este setor de 6 bilhões de dólares em 2008, segundo a Rede de Segurança e Defesa da América Latina. O México previa gastar no ano passado US$ 4,7 bilhões; o Chile, US$ 4,47 bilhões, e a Venezuela, US$ 3,35 bilhões.

Para Shifter, a boa notícia é que o debate em torno do Plano Colômbia pode dar transparência aos orçamentos militares da região.

"Esse é o verdadeiro assunto: a necessidade de maior abertura e clareza sobre os níveis de compra de armas e seu objetivo", disse. "Talvez isso leve a uma maior transparência, que hoje em dia não existe."

 

Folha