Ao assumir o comando do banco PanAmericano, que quase foi à bancarrota por causa de fraudes contábeis que demandaram um socorro de R$ 2,5 bilhões, a Caixa Econômica Federal praticamente estatizou o risco da instituição controlada por Silvio Santos. Na prática, segundo analistas ouvidos pelo Correio, qualquer problema que venha a ser detectado dentro do PanAmericano, daqui por diante, será de total responsabilidade da Caixa, instituição controlada pelo Tesouro Nacional.

Se, por um lado, o fato de funcionários do banco estatal assumirem todos os cargos de direção do PanAmericano — a presidente da Caixa, Maria Fernanda Ramos Coelho, responderá pela presidência do Conselho de Administração — afastou qualquer risco de a instituição de Silvio Santos quebrar, por outro, está provocando transtornos para a concorrência. Bancos de pequeno e médio portes estão vendo as suas fontes de financiamento escassearem. A tendência, segundo os especialistas, é de que os investidores, que logo depois da divulgação das irregularidades fugiram do PanAmericano, voltem a repassar dinheiro à instituição, certos de que estão protegidos pela solidez da Caixa. 
 

Nas contas do mercado, nos primeiros dias seguintes ao anúncio das fraudes, o PanAmericano enfrentou uma sangria de mais de R$ 500 milhões. Se essa tendência fosse mantida, o socorro dado pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), órgão mantido por contribuições do próprio sistema bancário, seria insuficiente para sustentar de pé o banco de Silvio Santos. Temendo o pior, já que detém quase 36% das ações do PanAmericano (49% do capital votante), a Caixa optou por tomar as rédeas e evitar que os R$ 740 milhões investidos no negócio virassem pó em questão de semanas.

Para os bancos de menor porte, como Sofisa, Pine, Indusval, BIC Banco, Cruzeiro do Sul e Daycoval, mantida a atual escassez de recursos, devido à desconfiança dos investidores, o resultado será a menor oferta de crédito por eles e o encarecimento das poucas linhas disponíveis. “No primeiro momento, tanto os bancos médios quanto os pequenos sofreram com o medo dos investidores de um risco sistêmico, de que a quebra do PanAmericano levasse todo mundo junto”, diz um técnico do governo. “Agora, essas mesmas instituições estão vendo o pouco que restou de dinheiro para elas migrar para o banco de Silvio Santos, que recebeu a chancela do Tesouro Nacional, de que não há como ruir”, acrescenta.

Prêmio pelos erros
Na opinião do presidente da EFC Consultores, Carlos Coradi, toda essa dificuldade é passageira. “Para os pequenos e médios bancos, a estatização do risco do PanAmericano foi muito boa. A decisão da Caixa de assumir o comando pode ser interpretada como uma garantia de continuidade do PanAmericano, o que evita uma cadeia de consequências ruins”, assinala. A mesma avaliação é feita por Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do Banco Central. “Se o PanAmericano fosse liquidado pelo BC, o trauma seria enorme no mercado. Felizmente, a Caixa assumiu o controle da instituição e indicou a continuidade do negócio, o que será plenamente avalizado pelos investidores”, acrescenta.

Segundo Freitas, alguns críticos podem ver na estatização do risco do PanAmericano um fato negativo. “Para muitos, a medida está sendo interpretada como um prêmio à má gestão. Se o banco era mal gerido, a Caixa foi lá e o socorreu. Com isso, desaparece a percepção de risco do mercado, como se qualquer banco fosse continuar bom, o que não é a realidade”, pondera.

Na verdade, ao tomar o controle do PanAmericano, a Caixa salvou a própria pele, pois se livrou de ter de explicar
como conseguiu perder R$ 740 milhões comprando parte de um banco. Por tabela, ajudou o BC a conter uma onda de desconfiança em relação à saúde do sistema financeiro. Agora, com o PanAmericano nas mãos e a sobrevivência garantida, a Caixa espera que o valor de mercado das ações do banco de Silvio Santos volte a subir.

Desde dezembro do ano passado, quando fechou a aquisição de 36% do capital, a Caixa já perdeu mais de R$ 300 milhões, como mostrou o Correio há uma semana. A direção do banco estatal acredita que, a partir de agora, o valor dos papéis voltará a subir e ficará mais fácil atrair um sócio que substitua o empresário e apresentador de televisão.

Prestação de contas
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e a presidente da Caixa, Maria Fernanda Ramos Coelho, depõem nesta quarta-feira na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Eles foram convocados para abrir a caixa-preta do Banco PanAmericano. A prestação de contas ocorre com uma semana de atraso. Os dois trabalharam pesado para adiar o encontro com os senadores, apostando que os ânimos esfriariam. A sabatina deverá ser longa, pois será feita em conjunto com a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), que convocou Meirelles para um balanço trimestral das ações de política monetária.

Ninguém assume culpa
Desde que as fraudes do PanAmericano se tornaram públicas, os responsáveis por detectá-las deram início a um grande jogo de empurra. O mais novo capítulo desse movimento foi detonado pelo Banco Fator, contratado pela Caixa Econômica Federal para fazer a avaliação da instituição controlada por Silvio Santos. O Fator informa que poderá entrar na Justiça contra o PanAmericano. Alega ter sido induzido a erros ao avaliar os balanços da instituição e recomendar à Caixa que entrasse em um negócio de R$ 740 milhões.
 

Segundo o Fator, o valor desembolsado pela Caixa pela compra de quase 36% do capital total do PanAmericano poderia ter sido ainda maior, se os seus analistas não tivessem encontrado alguns inconsistências nos balanços, visíveis mesmo com toda a maquiagem feita pelos ex-diretores da instituição que quase foi à falência. Na avaliação da diretoria do Fator, que fez um trabalho conjunto com a empresa de auditoria KPMG, toda a responsabilidade pelas informações constantes nos balanços são do PanAmericano. E até que se provasse o contrário, os números eram corretos.

Não à toa, Solimar Wichrowski, especialista em sistema financeiro da Consultoria JL Rodrigues, afirma que, a despeito de a Caixa ter assumido a gestão do PanAmericano e estatizado o seu risco, a imagem do banco de Silvio Santos continua prejudicada. “Mesmo com a intervenção estatal, a recuperação não será tão simples”, acredita.

Os balanços do PanAmericano eram auditados pela Deloitte e passavam pelo crivo do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgãos que deveriam brecar quaisquer tentativas de irregularidades nos mercados financeiros e de capitais. “A apuração desse caso deve ser criteriosa. Nada pode ficar sem resposta”, diz Carlos Coradi, presidente da EFC Consultores.

Correio Braziliense
 

 

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