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Feira Central de CG reúne tradição, costumes e empreendedorismo

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Quando os primeiros raios do sol surgem em Campina Grande nas manhãs de sábados, a vida já tem pulsado forte na Feira Central. Expressão cultural e econômica da cidade, a Feira parece ter vida própria. E resiste ao tempo e às mudanças de época. Muitas famílias ainda dependem da feira para tirar o sustento, e construir suas histórias de luta e resistência. 

Nascida no coração da cidade, a Feira Central passou por diversas mudanças, e, inevitavelmente, foi afetada pelos novos atrativos da era pós moderna. No passado, não tão  longínquo, a realidade era outra. A Feira Central mais parecia uma máquina que fazia o dinheiro dos campinenses e incontáveis fregueses das diversas cidades do Compartimento da Borborema circular a todo vapor. A economa da cidade batia forte no local. 

O vai e vem de pessoas era interminável. Gente para todo o lado, que desaparecia do alcance da vista. Mesmo com as vicissitudes dos tempos e as transformações dos novos padrões de consumo, a feira resiste. Aos sábados ainda é possível flagrar pessoas com sacola na mão, carregando mercadorias, comprando, pechinchando. São eles que ajudam a manter uma tradição que atravessa séculos. O local é singular. Insubstituível. Como se não bastasse ser um grande enterposto comercial, a Feira historicamente, desde os seus primórdios, se transformou em uma  fonte inesgotável de criação de emprego e renda. A visão empreendedora de muitos dos empresários campinense, nasceu na feira, em meio a avalanche de mercadorias comercializadas todos os dias, principalmente nos sábados. 

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O comerciante João Batista Marques de Araújo, morador do Monte Santo, praticamente, cresceu na feira e acompanhou parte  o desenvolvimento do local. Ele relatou que muitos dos supermercados que surgiram na Rainha da Borborema, tiveram como motor impulsionador  a Feira Central. Os empresários começaram as atividades como pequenos comerciantes, e depois expandiram os negócios, gerando emprego, renda, e movimentando a economina da cidade. 

Nessa grande fonte de empreendedorismo, os feirantes cultivam uma tradição que atravessa décadas. Transferem conhecimentos, saberes e a paixão pela feira. As novas gerações não perdem o costume. Chegam cedo. Armam cedo os bancos e ficam a esperam dos fregueses. Nem mesmo o advento dos “atacadões” e a avalanche de mercados e supermercados espalhados pelos bairros da cidade, enfraqueceu totalmente a feira, que parece ter vida própria. As entranhas da cidade podem ser vistas no local. No âmago da Feira, brotam as histórias dos comerciantes que construíram toda uma vida em torno dos bancos; São histórias de vida, de sonhos, de resistência e paixão pela Feira Central.

O comerciante Antônio Nunes Pereira de 72 anos, não consegue viver longe da feira. Há 61 anos, ele comercializa diversos produtos no local. Emocianado, não se imagina em outro lugar. Foi na Feira Central, que criou os seis filhos, quatro deles, já formados, e gerou ao longo dos anos, diversos empregos. Hoje, a bancodo seu Antônio, não tem o mesmo movimento de outrora. Mesmo assim, não pensa em deixar a feira. Sua vida e toda a história foi construída em meio a um amontoado de  mercadorias e dos frequeses que cativou.

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Aqui está parte de minha vida. Tudo o que eu quero é que os governantes olhem para a nossa Feira e  melhorem as condições de funcionamento. Muita gente ainda depende daqui para sobreviver. A feira é sim, uma fonte de economia e renda destacou o comerciante que reside no bairro das Malvinas.

A rotina é inalterável, mesmo tendo se pasado tantos anos. No cerne da feira, a impressão que se tem é que, mesmo se passando anos, alguns feirantes ficaram congelados no tempo. Muitas chegaram no local crianças. E não saíram mais. Na última quarta-feira (05).. o PB Agora visitou a feira, e constatou que os fenômenos do passado, resistem a modernidade.

No interior do mercado central, em um dos bancos de cereais e estivas, encontramos um senhor com largo sorriso no rosto. É o mesmo sorriso e simpatia que há 65 anos recebe os clientes. Aos 82 anos, Severino Francisco da Silva, respeira a Feira Central. Os cabelos grisalhos, rugas no rosto, revelam que o tempo passou para o comerciante que hoje mantêm três bancos de cereais no local. Ele conta que no auge da feira, chegou a ter cinco bancos. Empregou  muita gente, e hoje, com o enfraquecimento do comércio, diminuiu os investimentos. 

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A diversidade é uma das características do local e movimenta os 2.309 feirantes que tiram dali o sustento. Os bancos estão sendo carregados. E as ruas tomadas por mercadorias, muitas espalhadas no chão. Frutas, hortaliças, cereais, ervas, carnes, animais vivos ou já abatidos, roupas, flores, doces, artesanato, acessórios para pecuária, comida regional e um extenso leque de serviços, que trazem consigo os personagens que dão vida ao lugar. Na feira tem de tudo: seleiros, mangaieiros, flandreleiros, barbeiros, balaieiros, raizeiros, fateiros – e tantos outros personagens com seus saberes e ofícios tradicionais.

O banco de fumo de dona Maria das Dores da Silva, de 60 anos, existe há décadas. Ela herdou o comércio de seus país, Sebastião e Emarina Gomes. Há mais de 30 anos, vende fumo de rolo no mesmo lugar. Tem os clientes certos, mas confessa que antes ganhava mais dinheiro.  Sentada em um tamborete, com expressão séria, ela lembra dos bons tempos, mas também observa que ainda é possível de explorar uma das maiores e  antigas feiras da Paraíba.

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Eu sempre gostei da feira e aqui me sinto feliz. Criei toda a minha família com a venda de meus produtos disse. 

A Feira de Campina Grande é também um lugar de referência, de criação, de expressão, de sociabilidade e de identidade do povo nordestino. As trocas mercadológicas se misturam às trocas de significados e sentidos, tornando-a um lugar onde se concentram e reproduzem práticas culturais. É ali entre as raízes que curam tudo, entre os pratos de buchada e copos de gelada de coco, entre os gritos das ofertas e o cantar do galo, que também anuncia as novidades, que desabafam os amigos, que rezam os crentes, que se criam as rimas. E a Feira campinense continua ressoando no cantar dos emboladores de coco, dos repentistas, forrozeiros, cordelistas, violeiros e tantos outros artistas, que fazem da Feira palco das manifestações culturais e tradições de sua terra.

Os saberes e experiências dos feirantes vão sendo transmitidos a filhos, netos e bisnetos, assim como os espaços de comercialização. Herdados como verdadeiros legados familiares, os ofícios vão representando a história daqueles personagens, que dedicam sua vida à Feira e que, por isso, tem nela sua referência fundamental. Sua história é atrelada à dos fregueses, dos produtos e das negociações e Campina Grande vai se tornando ainda maior, pela continuidade de suas tradições culturais. Seu Severino Francisco, por exemplo, herdou o gosto e a paixão pela feira de seu pai Firmino Francisco da Silva. 

A história da Feira Central de Camina Grande bem que poderia ser contada por seu Roberto Vasconcelos Costa. Ele chegou pela primeira vez no lugar aos 13 anos, em tempos de bonanças acompanhando o seu pai que era comerciante. E nunca  mais saiu.Há 55 anos passa maior parte do tempo no banco de cereais, de onde assistiu a feira passar por grandes transformações. O comerciante conta que que a feira é sim uma fonte inesgotável de negócios, e muitos empresários hoje bem suscedidos, nasceram no local. 

Minha história e a história de muita gente foi construída dentro dessa feira afirmou.,o comerciante que reside em Santa Terezinha e há décadas mantem uma rotina que começa ainda de  madrugada e só termina no final da tarde. 

O sociólogo Luciano Albino, ressaltou que Campina Grande, surgiu do entrocamento comercial de duas culturas: a cultura da cana de açúcar do litoral e a cultura do gado que era do interior, tendo a Feira Central, um papel importante para consolidar essas culturas.

“A Feira de Campina Grande de alguma forma é a fundadora da própria cidade. E ela passa por várias características e momentos diferentes ressaltou.

Paradoxalmente, a Feira apesar de sua importância história e cultural passou por mudanças consideráveis nos últimos anos, e por um perceptível enfraquecimento. Isso poque, os consumidores passaram a redefinir um padrão de consumo.

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Luciano Albino observa que hoje a feira é tida como algo do passado. E esse novo fenômeno se deu por conta dos diversos supermercados que surgiram no entorno do espaço, criando um “cinturão” que absorve os consumidores campinenses.

Esses novos espaços nasceram com outra proposta, e com uma propaganda de que são mais higiênico, e oferecerem outros atrativos como compra com o uso de cartão de crédito.

A feira segundo ele, ficou para o consumidor mais antigo que mantém a tradição de fazer suas compras no local. Ele observa que a feira vive 24h, e se tornou um espaço perigo no período da noite.

“A Feira em Campina Grande é como se fosse um grande tapete no Centro de Campina Grande, e que durante anos, os governos escondessem” destacou.

Para ele, a Feira é a Campina profunda em toda a sua complexidade, sendo inclusive, local de sobrevivência para mutos campinenses.

O sociólogo Luciano Albino ressaltou que a feira tem suas particularidades e mesmo com o processo de enfraquecimento, preserva características insubstituíveis que o tempo não apaga.  Filho de feirante, Luciano conta que a mesmo sofrendo com os efeitos da modernidade, a feira resiste, mas não tem o mesmo pulsar de outrora.

‘Não apenas uma questão cultural, mas econômica. Muita gente hoje prefere a comonidade de comprar nos supermercados próxima de casa do que ir a feira. No entanto, na feira as mercadorias são encontradas com preços bem abaixo o que pode representar uma significativa economia” destaca o sociólogo.

Prestes a se transformar em um patrimônio imaterial e histórico brasileiro, por parte do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Feira Central de Campina Grande serviu de fonte de inspiração para a realização do projeto de extensão “Nos entremeios da revitalização: uma combinação aos modos de criar, fazer e viver a Feira Central de Campina Grande”, desenvolvido pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), através dos departamentos de Filosofia eCiências Sociais e de Geografia.

A proposta, coordenada pela professora doutora Maria Jackeline Feitosa Carvalho, do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais, surgiu em 2016, a partir do projeto de requalificação da feira e revitalização do Mercado Central a ser executado pelo poder público municipal, e tem como meta discutir a memória urbana da cidade, conhecendo com profundidade todos os espaços de um ambiente que contribuiu de forma singular para o surgimento da própria cidade de CampinaGrande.

“A feira tem elementos materiais que são históricos, mas, acima de tudo, tem elementos imateriais que são considerados patrimônios culturais, a exemplo dos feirantes”, explicou a professora Jackeline.

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As diversas manifestações culturais e as resistências dos feirantes também são abordadas no trabalho que resultará na produção de um documentário. O vídeo será produzido a partir dos depoimentos dos atores principais da feira, com suas histórias, dramas e anseios.

Em plena fase de execução, a ação tem como objetivos promover a interação entre o conhecimento acadêmico e o popular, através da “troca de saberes”; incentivar, através da atividade extensionista, a articulação entre memória e patrimônio a fim de se conhecer mais de perto a realidade local e regional com a produção de conhecimentos contextualizados; e implementar ações socioculturais e pedagógicas que promovam a educação patrimonial continuada e permanente, com o intuito de fortalecer a construção da memória e do patrimônio locais.

Para a professora Jackeline, a UEPB tem um papel fundamental nesse processo de resgate e preservação da memória da Feira Central. A relevância acadêmica esocial da proposta vai no sentido de tentar contribuir para fortalecer o espaço enquanto patrimônio da cidade que se caracteriza por diferentes formas de usos elugares. “Em sua dimensão social, a extensão irá contribuir para fortalecer a inserção dos feirantes e de todos que retiram deste lugar seu sustento, no processo de execução do Projeto de Revitalização deste espaço”, explica.

Conforme relatou a professora, a Feira Central ocupa papel estratégico na vida cultural e econômica da cidade, mas aos poucos tem perdido suas características. No contato com os feirantes, os professores e alunos envolvidos no projeto já verificaram que o maior problema da feira não é o aumento da concorrência com o advento das redes de atacadões e supermercados, mas a falta de infraestrutura.

O professor doutor Antônio Albuquerque da Costa, do Departamento de Geografia, conta que a ideia do projeto é descobrir as inúmeras histórias de vidas de seus feirantes. Segundo ele, muitos dos feirantes trabalham na feira há mais de 50 anos, tendo dado continuidade aos trabalhos iniciados pelos pais e avós. Nos primeiros contatos com a comunidade acadêmica, os feirantes manifestaram seus anseios e suas dificuldades. “A gente sabe que se esse patrimônio não for resgatado ele tende a sucumbir e desaparecer da lembrança do campinense”, observou professor Antônio.

Considerada como um grande museu popular ao ar livre, a feira é o espaço que reserva particularidades de um povo, seus costumes e suas tradições. Como muitas feiras do interior do Nordeste, a Feira Central de Campina Grande surgiu da necessidade de as pessoas negociarem mercadorias. A posição estratégica da Rainha da Borborema facilitou o encontro dos tropeiros que atravessavam a região, vindos do interior em direção ao litoral.

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Grandes empreendedores e visão de futuro nascida na Feira Central

 

Que vê o crescimento de uma das maiores redes de supermercados de Campina Grande, não imagina que tudo começou na Feira Central. E de forma modesta, sem muitas pretensões. A visão empreendedora de Vamberto Farias, extrapolou as fronteiras geográficas do 75 mil metros quadrados de um espaço entre ruas e barracas, para se transformar em um grande negócio que gera emprego e ajuda a aquecer a economia de Campina Grande  Hoje são três lojas da rede em pleno funcionamento..Outros empresários do ramo também surgiram na feira e depois expandiram seus negócios, a exemplo do Supermercado Ideal. 

O ex-presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), Arthur Almeida, também começou na feira, e também destaca as particulaidades do espaço comercial. O empresário Anchienta Cavalcante, proprietário da Imobiliária Rocha Cavalcante, também tem motivos para enaltecer o potecial cultural e econômico da Feira.

A solidez  da estrutura de um dos mais bem sucedidos empreendedores da cidade, nasceu nas entranhas da Feira Central, em um banco de farinha no inicio dos anos 70, quando ele chegou na Rainha da Borborema.

“A Feira Central não pode ser compreendida como uma feira comum, uma vez que a estrutura mercadológica e os espaços por essa compreendida, se configura como um verdadeiro complexo mercantil, composto por um mercado varejista e um comércio atacadista” enfatizou Agnaldo Batista, administrador da feira.

 

Agnaldo observou que as práticas de vendas extrapolam as ruas adjacentes ao mercado central, e engloba nove ruas. São mais de 4 mil pontos comerciais gerando emprego e renda, dos quais, 900, apenas no mercado central.

Ele ressalta que o crescimento democrático da feira central, gerou diversos contextos de descentralização econômica com a instalação de outros instrumentos como os atacadões e supermercados. E levou muitas pessoas a migrarem para outros estabelecimentos  comerciais que foram instalados nos bairros. 

A Feira central ainda é uma das maiores existentes no país destacou.

Atravesando décadas, a feira segue como um dos mais importantes espaços de Campina Grande, responsável pelo aquecimento da economia local. 

 

 

Texto: Severino Lopes 

Fotos e edição Márcia Dias

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