Por pbagora.com.br

 O café da manhã do brasileiro está ficando cada vez mais salgado. Com a alta do dólar, a quebra da safra de trigo na Argentina e a geada no Sul do País (que produz trigo), os principais produtos da cadeia do grão estão sofrendo forte reajuste de preços. O impacto já chegou ao bolso do consumidor, mas o repasse de aumento de custos pode continuar.

Para tentar conter a alta do preço do pãozinho, a Câmara de Comércio Exterior (Camex), ligada do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) prorrogou na segunda-feira (9) o prazo para a importação de trigo com tarifa zero, para uma cota adicional de 400 mil toneladas. O prazo terminaria na terça-feira (10) e foi prorrogado até 30 de novembro.

Especialmente nas padarias de pequeno porte, os preços avançam mais rapidamente. Na Nova Fantástica, do Jardim Amália, no Capão Redondo (zona sul de São Paulo), o quilo do pãozinho saía por R$ 5,99 até pouco menos de um mês atrás. Hoje, os clientes de Lourivaldo Rocha, dono do estabelecimento, já estão compartilhando das perdas do empresário. O quilo do pãozinho está saindo por R$ 6,49 – uma alta de 8,34%. “Eu segurei dois reajustes consecutivos. Mas agora, se não repassasse esse, ia começar a perder muito”, conta.

Absorver a alta dos preços da farinha de trigo tem sido a principal orientação da Associação Brasileira da Indústria da Panificação e Confeitaria (Abip) para os estabelecimentos em todo o País.

Um conjunto de fatores nada favoráveis tem carregado o preço do pãozinho em todo o Brasil, que já subiu em média 7,75% neste ano, segundo a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Este é um dos efeitos da alta do dólar, que se intensificou nos últimos meses. O Brasil não é autosuficiente em trigo e tem de importar. Em julho deste ano, o principal fornecedor brasileiro de trigo, a Argentina, suspendeu a exportação do grão, o que obrigou os moinhos brasileiros a buscar a matéria-prima nos Estados Unidos e no Canadá. Resultado: só em julho deste ano, o preço do trigo em grão importado pelo Brasil subiu 34,73% frente o mesmo mês do ano passado – mesmo com um aumento de 11,69% no volume importado em toneladas.

“No ano passado, tinha panificadora comprando farinha direto da Argentina. Hoje perdemos a importação até do trigo”, diz Manuel Alves, vice-presidente da Sampapão, sindicato de padarias e confeitarias de São Paulo. Dono da Nova Perfil, no bairro paulistano do Ipiranga, Alves diz ter conseguido segurar a alta nos preços até agora, mas sabe que esse é um privilégio de ter um negócio um pouco maior. “Não vai dar para segurar essa alta por muito tempo ainda.”

No meio da cadeia

O preço nas padarias é a última peça a cair no efeito dominó que começa lá atrás, com os preços do trigo. Com a matéria-prima em escassez, os moinhos recebem o produto mais caro e acabam repassando os preços para a farinha de trigo que entregam nas panificadoras nacionais.

Toda a indústria acaba afetada. O pão de queijo subiu 10,59% neste ano; os bolos, 9,28%; e o pão doce avançou 7,59%.

“O repasse desses preços para as panificadoras foi lento, pois ainda tínhamos algum estoque. À medida que tivemos de comprar mais matéria-prima, naturalmente fomos pegando o dólar atualizado”, explica Lawrence Pih, empresário e presidente do Moinho Pacífico. Para ele, este é um dos piores anos em sua trajetória à frente da empresa, uma das principais fabricantes de farinha da América Latina. “Trazer trigo para o Brasil tem sido um calvário.”

Pih espera novos aumentos no preço da farinha de trigo. Não só porque ainda há reajustes a serem passados, mas também porque as expectativas para a safra brasileira de trigo são as piores possíveis. Com as fortes geadas no mês de julho e fungos nas lavouras , uma boa parte da plantação nacional foi destruída – bem como a produção paraguaia, vizinha ao Paraná. Segundo o empresário, a expectativa de safra que era 2,7 milhões de toneladas não deverá passar de 1,4 milhões de toneladas, “com um produto de baixa qualidade”.

“A qualidade do trigo que sobrou também é duvidosa. As primeiras colheitas já vieram com um trigo ruim para a produção de farinha para pães”, diz.

Como alento, a matéria-prima nacional de baixa qualidade poderá servir para a fabricação de pastifícios, que já tiveram reajuste 10,92% no ano. Os biscoitos poderão ter seu reajuste menor também, o que poderá impactar no grupo Café da Manhã, medido pelo IPCA, que já teve alta de 12,91% neste ano também. “Toda a cadeia de alimentos depende do câmbio”, explica Pih.

Associação quer desonerar padarias

Atualmente, tramita no senado um Projeto de Emenda Constitucional que pretende desonerar as empresas inseridas no Simples Nacional. Segundo o presidente da Abip, José Batista de Oliveira, essa pequena mudança daria um alívio de 4% no preço do pãozinho. “Estamos buscando redução de impostos nesse universo de empresas, já que 95% das padarias estão inseridas no Simples”, diz.

Por enquanto, a associação ainda não tem calculadas as perdas com a alta do dólar – e a absorção da alta no preço da farinha de trigo. Mas os resultados do setor no ano já não serão os mesmos. “Estávamos esperando um crescimento importante, mas depois desses acontecimentos mudamos de expectativa: se nosso crescimento for zero, já estaremos em um bom cenário.”

 

IG