Por pbagora.com.br

 

“Meu samba não é um modismo que vem e que vai, meu samba enfrenta a fúria dos vendavais, meu samba é uma tinta que mancha e nunca sai”. Como na letra de “Da melhor qualidade”, em parceria com Almir Guineto, o sambista Arlindo Cruz completa 30 anos de carreira mostrando à juventude como é que se faz música. A trajetória do artista é passada a limpo em dois CDs e um DVD “MTV ao vivo”, lançados agora pela Deckdisc.

 

“Quando fui convidado, gostei do projeto logo de cara”, diz. “O público da MTV é um público diferente. Não que não existam jovens ligados ao samba, mas são pessoas que ouvem rock, hip hop, reggae.”

Ao lado de convidados como Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Marcelo D2 e de seu filho de 17 anos, Arlindo Neto, o sambista mostra um apanhado de clássicos como “Bagaço da laranja”, além das inéditas “Bom aprendiz”, “Não dá”, “Mão fina” e “Vê se não demora”.

 

Ele se apresenta em São Paulo nesta sexta (17) e sábado (18), no Citibank Hall. O programa “MTV ao Vivo Arlindo Cruz” vai ao ar nesta sexta (17) na emissora às 22h30, com reprise domingo (19) às 19h15. Confira a seguir trechos da entrevista com o cantor e compositor.

G1 – Você acha que está havendo uma abertura maior para o samba na mídia?
Arlindo Cruz – Acho que todo mudo está ouvindo mais outras coisas, os jovens estão ouvindo os sambistas das antigas e os sambistas estão ouvindo rock e MPB. Meu filho, por exemplo, ouve de tudo, de Racionais MCs a CPM22. Quando a música é boa, dá mais vontade de juntar as coisas, fazer um som com sotaque brasileiro. A mistura mais visível é a de samba com rap, feita por gente como Marcelo D2, Rappin Hood. Eu costumo dizer que todo músico brasileiro, independente da origem, vai cantar samba um dia, nem que seja na torcida do futebol, no ano-novo, numa festa em casa, no carnaval. De alguma forma todo músico brasileiro acaba cantando samba.

G1 – Por que as pessoas estão ouvindo mais outros tipos de som?
Arlindo Cruz – A internet é um veículo fundamental nesse processo. A pesquisa sobre compositores antigos, como a obra de Candeia, Noel Rosa, ficou mais acessível. Hoje em dia qualquer jovem discute com sambista antigo com bastante propriedade. A internet ajuda muito na pesquisa, tem listas de discussão sobre samba. Tem gente que é do interior que se acha mais raiz até do que um cara nascido em plena Lapa.

G1 – Como é a sua relação com o Marcelo D2?
Arlindo Cruz – Ele estava gravando o clipe de ‘Eu tiro é onda’ para a MTV e aí a gente se conheceu. Continuamos nos vendo, fizemos música juntos, e ele participou de alguns trabalhos meus. Recentemente eu participei da gravação do DVD dele no Jockey Club. Gosto muito da mistura de samba com rap.

G1 – Quais as principais semelhanças entre os dois gêneros?
Arlindo Cruz – Acho que os assuntos tratados pelo rap são muito pertinentes. Sempre existiu o samba de protesto, que falava sobre o lado social do morro, as condições, os desafios do pessoal mais humilde. O rap é justamente isso aí. Estão quase todos falando dessa parte social do Brasil e essa junção é fundamental na música brasileira. É bom saber que as outras gerações não estão satisfeitas com o que está acontecendo e estão usando sua arte para melhorar um pouco esse quadro.

G1 – Seu filho, Arlindo Neto, sempre foi envolvido com o universo do samba?
Arlindo Cruz – Desde garoto ele ouve samba. Festa aqui em casa sempre tem pagode, como na minha casa, que tinha som de vitrola e era só chorinho. Ele faz parte do grupo Bandas de Berço, formada por filhos de compositores. O Arlindo Neto sempre foi embalado com músicas de verdade, não só com canções de ninar.

G1 – Você está completando 30 anos de carreira. Que balanço faz dessas três décadas de trabalho?
Arlindo Cruz – Queria que fossem 30 anos de idade… Como diz o ditado antigo, fui comendo o mingau quente pelas beiradas. Sempre fui bem comedido, dando um passo de cada vez. Passei por várias experiências importantíssimas que ajudaram a moldar o artista e a minha personalidade no palco. Um compositor crescendo cada vez mais com a influência dos parceriros, somando com o meu jeito de compor, de escrever. Fui amadurecendo como cantor, desde o Fundo de Quintal até as parcerias com Sombrinha. Agora estou no quarto disco solo. Todos foram momentos muito importantes da minha vida, me sinto muito feliz de poder reunir tudo isso neste DVD.

G1 – Como foi a escolha do repertório?
Arlindo Cruz – Além dos clássicos da minha carreira, tem quatro gravações inéditas, que fiz de uma maneira diferente, como uma forma de mostrar minha carreira para esse público novo. A preocupação maior era, além de ter uma qualidade legal, manter uma interação, fazer com que o público reagisse bem cantando junto e batendo palmas. Com sucessos como ‘Camarão que dorme a onda leva’, ‘Ainda é tempo pra ser feliz’,‘A pureza da flor’, havia o risco de lançar as inéditas e cair um pouco o nível do show. Mas as músicas são boas, não precisa ter aquele refrão fácil pra todo mundo cantar.
 

G1

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