Por pbagora.com.br

Uma das mais conceituadas orquestras do planeta, a Filarmônica de Nova York encomendou uma obra a um compositor brasileiro. “Macunaíma”, do carioca Arthur Kampela, estreará em 17 de dezembro, sob a regência do compositor-residente da orquestra na temporada 2009-2010, o finlandês Magnus Lindberg, 51.

 

“Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter”, é o arquétipo mais completo do camaleão, do que muda de cor e perspectiva, o cambiador do que é”, explica o compositor, que baseou sua obra no livro homônimo do escritor Mário de Andrade (1893-1945), e a concebeu como um balé. “Não sei se é dançável, mas isso não importa.”

Com duração aproximada entre 15 e 20 minutos, “Macunaíma” está sendo escrita para 20 instrumentos, incluindo dois percussionistas. “No começo, eles me ofereceram um conjunto de 40 a 50 músicos”, conta Kampela. “No entanto, a recessão veio para atrapalhar, e nós tivemos que nos conformar com uma orquestra de câmara, embora compreendendo todos os instrumentos da orquestra.”

A apresentação inaugura Contact, a série de música contemporânea que é uma das inovações introduzidas pelo maestro Alan Gilbert, 42, em sua primeira temporada como diretor musical da filarmônica. Um dos mais jovens regentes e primeiro nova-iorquino a ocupar o cargo, Gilbert começa oficialmente sua gestão em setembro.

“Macunaíma” será tocada de novo ainda em 19 de dezembro, e, em ambas as ocasiões, o programa é complementado por outras três estreias mundiais: “Game of Attractions”, da norte-americana Arlene Sierra, 39, e obras ainda sem títulos do francês Marc-André Dalbavie, 48, e da americana de origem chinesa Lei Liang, 36.

A encomenda começou com um e-mail enviado a Kampela pelo comitê da Filarmônica, em 2008, pedindo algumas de suas composições para serem examinadas. “Obviamente pensei que isto não daria muita coisa, pois minhas músicas apresentam certa complexidade de realização pouco tradicional ao idioma e repertório por eles normalmente abordado”, conta o compositor, que, contudo, enviou as obras.

Em janeiro deste ano, a orquestra finalmente bateu o martelo, dando-lhe um prazo de entrega apertado: “Para a minha música, necessito de duas vezes mais tempo, mas fico extremamente feliz com a oportunidade, que, me parece, não é oferecida a um brasileiro desde Villa-Lobos”, festeja.

Nascido no Rio de Janeiro, em 1960, Kampela mora em Nova York, onde é professor adjunto de composição e violão na Universidade Columbia e na Universidade de Nova York (NYU). Venceu concursos internacionais de violão (Caracas, 1995, e Montevidéu, 1998) e, como compositor, teve a linguagem comparada ao universo complexo do britânico Brian Ferneyhough, 66.

Um dos mais apaixonados divulgadores de sua obra é o violonista Fabio Zanon, que define: “Sua técnica pode até ter algo em comum com Ferneyhough, mas a resultante sonora é uma coisa totalmente diferente. Fazendo um paralelo com a culinária, os ingredientes nunca geram, na boca, a sensação que a nossa expectativa antecipa. Para mim, soa como uma pessoa hiperativa que consegue falar sobre 50 assuntos ao mesmo tempo sem perder o fio da meada”.

“Como intérprete e compositor venho, desde os anos 80, levando meu trabalho de músicas híbridas, avant bossas novas, sambas atonais, rocks à la Bartók etc.”, diz Kampela. “Nos EUA e fora do Brasil eu sou conhecido como uma espécie de “Frank Zappa brasileiro”. Mas, na verdade, eu sou apenas um “farrapo” ou um coquetel de vozes que ecoam e dialogam em mim, desde os tropicalistas a Ferneyhough– para citar apenas dois extremos.”

 

 

Folha