De acordo com o biólogo e cientista norte-americano Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), é preciso se preocupar com os impactos dos incêndios na Amazônia nas mudanças climáticas já que, quando queimam, as florestas liberam gás carbônico e metano, o que contribui para o aquecimento global e novos incêndios. De acordo com o cientista, as madeiras queimadas tornam a floresta mais vulnerável a outros incêndios ainda mais intensos. Os dois fenômenos contribuem para um ciclo vicioso, que colocar a floresta em risco.
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Para ele, governo, sociedade e setor produtivo precisam tomar consciência dos serviços ambientais prestados pela Amazônia. “É muito importante que o próprio governo assuma a responsabilidade que tem, mantendo o trabalho dos agentes ambientais e as políticas. O país precisa deixar esse sentimento de que está sendo enganado, pois o interesse de preservar a floresta é do próprio país” disse, com relação à ajuda internacional. Fearnside pesquisa agro-ecossistemas tropicais, desmatamento, degradação ambiental e impactos das hidrelétricas na Amazônia. Ele vive em Manaus há mais de vinte anos.
Qual a gravidade dessas queimadas? É possível atribuir a causa à seca?

O que está acontecendo está completamente fora do padrão e está diretamente relacionado ao surto de desmatamento que vem ocorrendo desde maio, como mostrou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Basta ver como os focos coincidem com os municípios onde há mais desmatamento. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) divulgou análise de dados meteorológicos dos últimos anos. A seca deste ano está dentro do padrão e não há a presença do fenômeno El Ninõ, este ano, que reduz o volume das chuvas. Então, o que explica é o discurso do presidente, a falta de aplicação de multas, o aviso prévio antes de fazer ações de fiscalização. Tudo isso tem um componente simbólico que levaram fazendeiros a se organizar.
Quais as consequências desses incêndios?

Queimadas são diferentes dos incêndios. As queimadas são usadas para agricultura ou pastagens e precisam ser feitas de forma controlada. Incêndios podem ser provocados ou terem causa natural. Os incêndios estão escapando para a floresta, coisa que acontece mais em secas extremas, e isso é muito perigoso. Quando o fogo entra na floresta, ela fica mais vulnerável a incêndios futuros. Isso porque há um acúmulo de madeira morta. Quando tiver outra seca, o fogo entra com chamas maiores e isso cria um ciclo vicioso que vai destruir a floresta. Também tem o efeito da ação dos madeireiros, seja legal ou ilegal. Eles amarram as árvores e puxam com tratores, mas só levam os troncos valiosos, que interessam. Ficam os troncos e os galhos, além disso, quando arrastam, outras árvores são mortas, ao serem derrubadas no processo, mas ficam ali. E essa madeira morta favorece outros incêndios. As aberturas nas copa das floresta, onde entra o sol e o vento, vão ressecando a floresta, o que também favores incêndios.

Além disso, as queimadas liberam gás carbônico e metano que aquecem o clima. Com quatro incêndios como este, não há mais floresta. Isso é algo muito perigoso, porque foge ao controle. E não se trata apenas do efeito estufa, que é uma preocupação mundial, mas também da reciclagem de água, pois a Floresta é responsável pelo vapor d’água e pontos de chuvas em São Paulo, no Centro- Sul do Brasil e também em países vizinhos. Entre dezembro e fevereiro, a Floresta Amazônica é responsável por 70% da água de São Paulo. Sem a floresta, essa chuva não ocorre. Sem água, a produção agrícola está ameaçada. Eu acho que foi muito importante esse fenômeno de São Paulo, quando a fumaça escureceu o dia. Isso é bom para que o país acorde. Governo, sociedade e setor produtivo precisam tomar consciência dos enormes serviços ambientais que a floresta presta a todos, antes que seja tarde.

 

Redação com Correio Braziliense

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