Por pbagora.com.br

A filha da médica paraibana Lúcia Abrantes, que faleceu na última sexta-feira na cidade de Iguatu no Ceará, vítima da Covid-19, fez um desabafo em suas redes sociais após a mãe, mesmo após o óbito, ser vítima de ataques de internautas por conta do seu posicionamento em relação ao novo coronavírus.

De acordo com Keka Abrantes “os juízes da internet” não estão respeitando a dor da família por conta de um posicionamento infeliz.

Confira:

“Estão falando por aí da minha mãe. Os juízes da internet. Aqueles seres de luz que são perfeitos, nunca erram e vivem sua vida na terra para ajudar e fazer a humanidade melhor. Minha mãe faleceu ontem depois de 13 dias internada na UTI, destes, 11 intubada. Ela faleceu às 11h da manhã da sexta-feira e só conseguimos enterra-lá às 17h do sabádo. Tudo em epoca de pandemia é mais dificil. Não conseguimos realizar seu desejo de ficar ao lado dos pais. Não houve velório. Não a vimos. Não houve cerimônia alguma. No cemitério apenas eu, meu irmão, dois amigos anjos queridos e uma amiga dela. Foram dois dias exaustivos e ainda estou cansada, não li esses comentários mas meu irmão viu e muita gente também. Só me disseram que ela havia virado meme e algumas pessoas falaram que o mundo agora era um lugar melhor agora que ela não estava nele. Que mundo? O seu mundo? Por que o meu mundo do meu irmão, dos meus tios, primos, da sua netinha de 2 anos de idade é que não é. O mundo dos seus amigos e dos seus pacientes também não. Ela pode ter feito um comentário infeliz? Pode sim. Perfeitamente. Assim como todos nós já fizemos ou poderemos fazer um dia. O que mais me machuca é saber que esse comentário foi motivado por seu medo de sempre precisar dar o melhor para mim e meu irmão, de sempre precisar trabalhar para criar SOZINHA seus filhos, de precisar se autoafirmar enquanto mulher capaz de ser e fazer o que quiser nesse mundo. Não posso esquecer também o amor que tinha pela sua profissão, que a fez tomar, aos olhos de muitos, escolhas erradas, mas que para ela, eram as melhores escolhas. Ela nunca fez medicina por retorno financeiro, mas sim por amor. Lembro que quando eu era pequena ninguém acreditava que minha mãe era médica, pois não tínhamos carro., estudávamos ambos em escola pública (não toda nossa jornada escolar, é verdade) e ela pegava e deixava duas crianças de ônibus na escola. Aos 66 anos nunca parou de trabalhar, inclusive agora, seu último emprego, estava na zona rural, indo trabalhar onde a maioria dos médicos nunca quis. Adorava almoçar na casa de seus pacientes. Sempre tinha tempo para atender mais um. Lembro que um dos seus maiores sonhos na vida era fazer um cruzeiro. Em 2016 ela realizou esse sonho. Fomos eu e ela. Metade da viagem ela ficou atendendo as pessoas, medicando. Indo nas cabines examinar pessoas. Fiquei me perguntando qual outro médico faria isso em suas férias, de graça, pelo simples ato de ajudar. Apoiadora convicta da presença dos cubanos no mais médicos, do SUS (onde trabalhou por mais de 30 anos), apaixonada pelo Lula desde a década de 80, votou no Lula e no Haddad. Você que falou não sabia disso não era?Perdoem os erros gramaticais (juízes da internet). Tenho certeza que poderia escrever melhor. Mas hoje não. Hoje estou exausta.”.

PB Agora

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