João Pessoa, 20 de Outubro de 2017

13 de Outubro de 2017

Em 40 anos, obesidade em crianças a adolescentes aumentou 8 vezes

Em 40 anos, obesidade em crianças a adolescentes aumentou 8 vezes

 A epidemia de obesidade que avança pelo mundo começa bem mais cedo do que o imaginado. No maior estudo epidemiológico sobre o tema, pesquisadores liderados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Imperial College de Londres descobriram que o percentual de crianças e adolescentes obesos aumentou oito vezes em quatro décadas. A tendência só deve piorar: ano a ano, meninas e meninos ficam mais gordos, um padrão especialmente verdadeiro nos países em desenvolvimento. No ritmo de hoje, as estatísticas apontam que, em 2022, haverá mais pessoas de 5 a 19 anos obesas que com peso abaixo do ideal.

Já se sabia que a obesidade rondava crianças e jovens, mas, até hoje, o que se tinha eram estimativas em cima de um ou outro estudo nacional. Pela primeira vez, a OMS conseguiu juntar dados de 31,5 milhões de pessoas nessa faixa etária, fornecidos por mais de mil colaboradores de 200 países. Com um histórico começando em 1975, os pesquisadores avaliaram, ano a ano, a evolução do ganho de peso. Há quatro décadas, as curvas jamais deixaram de ascender, em todo o globo. Desde a década de 2000, os países desenvolvidos, incluindo os Estados Unidos, começaram a reduzir o ritmo de crescimento, embora a incidência da obesidade entre jovens continue aumentando. Ao mesmo tempo, na América Latina e nas ilhas da Polinésia e da Micronésia, o problema ainda está muito acelerado. Em alguns países do Pacífico, mais de 30% das crianças e dos adolescentes estão obesos.

Globalmente, as taxas da obesidade saltaram de menos de 1% para quase 6% (meninas) e 8% (meninos). Em números, são 124 milhões de pessoas de 5 a 19 anos com índice de massa corporal (IMC) condizente com essa condição, contra 11 milhões, registrados em 1975. O Brasil está acima das médias mundiais. Enquanto na década de 1970 apenas 1% das garotas e 0,9% dos garotos estavam obesos, em 2016 eles representavam 9,4% e 12,7% dessa faixa etária, respectivamente.

Além dos dados de crianças e adolescentes, o estudo da OMS, publicado na revista The Lancet, incluiu estatísticas de 97,4 milhões de adultos. Na população acima dos 20 anos, o número de obesos saltou de 100 milhões em 1975 (69 milhões de mulheres, 31 milhões de homens) para 671 milhões em 2016 (390 milhões de mulheres e 281 milhões de homens). O recado, segundo Jamily Drago, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e médica da clínica Metasense, é: “Essa criança obesa vai virar um adulto obeso, com todos os problemas de saúde associados, como doenças cardiovasculares, intolerância à glicose, colesterol alto e disfunção hepática, e que, muitas vezes, terá de recorrer ao extremo da cirurgia bariátrica, o que é muito dramático, principalmente em pacientes jovens”, diz. Diabesidade

O endocrinologista da Corpometria Flávio Cadegiani, membro da Associação Brasileira para Estudos da Obesidade (Abeso) e da The Obesity Society, entre outras entidades médicas, prevê uma catástrofe para a saúde pública. “Podemos prever uma epidemia de diabetes em breve”, diz. A relação entre as duas condições já está tão fortemente determinada que hoje se fala em diabesidade, a simultaneidade quase padrão desses problemas. “Sem exagero, a obesidade será a responsável pelo colapso da saúde pública”, acredita. Para o médico, as medidas contra o avanço do excesso de peso devem ser igualmente drásticas. “É necessário ter leis de restrições iguais às existentes para álcool e cigarro, aumentando impostos dos industrializados e subsidiando os alimentos integrais”, acredita.

Em nota, Fiona Bull, coordenadora de programa de prevenção de doenças crônicas da OMS, afirmou que os dados “lembram e reforçam que o sobrepeso e a obesidade são uma crise na saúde global, ameaçada de piorar nos próximos anos, a não ser que se tomem ações drásticas”. Um outro documento divulgado pela organização oferece subsídios para os países implementarem um plano de ação para acabar com a obesidade infantil. “Os países devem se empenhar, particularmente, em reduzir o consumo de alimentos baratos, pobres em nutrientes, ultraprocessados e densos em caloria. Eles também deveriam reduzir o tempo que as crianças passam na frente das telas e em atividades de lazer sedentárias, promovendo maior participação em atividades físicas por meio de recreação e esportes”, emendou Bull.

A endocrinologista Jamily Drago destaca que, no Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, já traz uma série de importantes recomendações para se combater a obesidade e a má nutrição. “É muito bom, mas, infelizmente, ele só fica na teoria e não é colocado em prática. No Brasil, falta educação, e é educação que leva à saúde”, afirma.

Dois extremos

O estudo epidemiológico da OMS e do Imperial College de Londres evidencia dois extremos da saúde infantojuvenil: apesar da incidência galopante da obesidade, 75 milhões de garotas e 117 milhões de meninos estão moderadamente ou severamente abaixo do peso. Segundo os pesquisadores, isso reflete os dois lados da má nutrição, em que jovens obesos e abaixo do peso convivem nas mesmas comunidades.

O endocrinologista Flávio Cadegiani, porém, alerta que, nos países asiáticos, a contagem de pessoas com peso abaixo do ideal pode estar superestimada. “Existe um componente étnico. Na população amarela, um índice de massa corporal de 18 a 23 (considerado baixo) poderia ser considerado normal”, observa. Combate passa pela família

Sem a participação da família e da comunidade, todo o esforço para conter a obesidade infantil será infrutífero, diz o psicólogo Vladimir Melo, autor do livro Obesidade infantil: interações familiares e ciclo de vida numa perspectiva sistêmica. O especialista, que conduz uma pesquisa sobre esse tema na Universidade Católica de Brasília, lembra que, ao se falar em combate à obesidade, o meio em que a criança vive é o único fator sobre o qual é possível intervir.

“A obesidade aborda componentes metabólicos, genéticos e ambientais. O que podemos mudar é o ambiente”, diz. “Quem compra a comida, quem desenvolve os hábitos, e não só na questão da alimentação, é a família. Por isso, nos interessamos em olhar não só o presente, mas a relação histórica dessa família com a alimentação, mesmo antes dessa criança nascer”, conta. De acordo com Melo, além disso, é necessário investigar as regras familiares. “A criança que não tem regra em casa não será regrada para a alimentação. O tipo de alimentação é reflexo da falta de limites.”

Refeições na rua

Com os pais cada vez mais ocupados no trabalho, a família se reúne cada vez menos em torno da mesa, como acontecia nas décadas de 1970 e 1980. O psicólogo lembra que esse hábito deixou de ser rotina, ao mesmo tempo em que cada um almoça onde pode e quer — inclusive, as crianças. “Na rua, elas vão comer salgado, hambúrguer, tomar refrigerante. Apesar de existirem algumas iniciativas para introduzir alimentos mais saudáveis nas escolas, muitas vezes, as crianças já levam os industrializados de casa”, afirma.

O psicólogo destaca também que as novas dinâmicas familiares dificultam a manutenção de uma alimentação consistente. “A criança convive em vários ambientes. Na casa da mãe, do pai, dos avós”, diz. Esses últimos, aliás, são objeto de pesquisa da tese de doutorado de Vladimir Melo que está em andamento. Ele quer descobrir como os avós estão contribuindo para o aumento da obesidade infantojuvenil. (PO) Palavra de especialista “O Brasil está em uma posição mediana entre os 200 países: meninas na 79ª, e meninos na 73ª. Mas o que me preocupa é a tendência do aumento da obesidade infantil, que é muito rápido. Acredito que isso só vá piorar porque, no país, estamos seguindo uma alimentação muito rica em calorias, ao mesmo tempo em que houve uma diminuição da atividade física. Com a urbanização, a atividade física no trabalho diminuiu, assim como o deslocamento a pé ou de bicicleta, até mesmo por questão de segurança. Também há a questão do lobby da indústria de alimentos no Congresso Nacional. Já houve várias tentativas de regulamentar o marketing de produtos como salgadinhos e fast food para a população infantil. No Brasil, você tem propaganda desses produtos diretamente para crianças; você vai à lanchonete e ganha um brinquedo. Por que o país taxa cigarro e não taxa produtos obesogênicos? O México conseguiu uma redução substancial no consumo da Coca-Cola, sobretaxando a bebida. Devia acontecer a mesma coisa aqui. Mas temos uma inatividade que não é por acaso: é o lobby fortíssimo da indústria alimentícia.”

Redação com OMS



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